quarta-feira, 18 de julho de 2012
Livingstone - Zâmbia
Pela cara do marido, que com certeza era branca, mas estava vermelha como um tomate, e da esposa, cuja pele seguia o mesmo tom, a viagem corria muito bem. Não errei o meu palpite. Como quem não quer nada, puxei conversa e em apenas cinco minutos de bate-papo entendi o motivo de tanta empolgação. Tratava-se de Jenny e Steve, um casal cinquentão inglês que viajava pelo continente africano pela primeira vez. Era um sonho antigo dos dois, que enfim se concretizava. A jornada tinha começado há 10 dias na África do Sul, depois Namíbia e terminaria na Zâmbia, onde nos conhecemos. O que mais chamava atenção é que toda a animação de John não era porque ele tinha acabado de ver o Big Five (leão, leopardo, elefante, búfalo e rinoceronte, os animais mais famosos da savana), mas pelo fato de ter saltado de um dos bungee jumps mais radicais do mundo, além de ter encarado as corredeiras do rio Zambezi (um dos melhores para a prática de rafting), sobrevoado a majestosa Victoria Falls de helicóptero e encarado um safári aquático. Agora estava ali, esperando a sua vez para fazer um passeio de elefante. Tudo isso sem sair das imediações de Livingstone, cidade com pouco mais de 160 mil habitantes onde se concentra praticamente tudo que há de bom na Zâmbia.
Apesar de pequena, Livingstone é conhecida mundialmente pela beleza das Cataratas Victoria, um conjunto de cachoeiras com
1.708 metros de extensão e 100 metros de altura, que despeja a cada minuto 600 milhões de litros de água. Ela serviu como pedra fundamental para o desenvolvimento do turismo.
Colonizada no final do Século 19 pelos ingleses, a Zâmbia ainda soa “diferente demais” para boa parte dos brasileiros. Os brazucas têm descoberto a África em doses homeopáticas: basicamente Egito, Marrocos e África do Sul são os destinos mais procurados. O que muita gente não sabe é que Livingstone está a menos de duas horas de viagem da terra de Nelson Mandela. Para quem está na África do Sul, é como ir de São Paulo até Belo Horizonte. Há voos diretos que partem de Johannesburgo. No próprio aeroporto os estrangeiros preenchem um formulário básico, pagam US$ 50 e recebem o visto de entrada sem burocracia.
Saindo do aeroporto, a única alternativa que se tem para chegar em algum lugar é seguir pela avenida Mosi-Oa-Tunya, a veia principal de ligação da região. É as suas margens que se localizam os hotéis, o comércio local, dois museus, restaurantes e um pequeno shopping.
O curioso é que ela é apenas um trecho da famosa estrada africana que liga a Cidade do Cabo até o Cairo, na extremidade oposta do continente. A via corta seis países: África do Sul, Zimbábue, Zâmbia, Tanzânia, Quênia, Sudão e Egito.
Vinte minutos depois de ter caído na estrada, já estava numa pequena marina, à espera do water taxi que me levaria até o hotel The Royal Livingstone. Construído as margens do rio Zambezi e pertinho da Victoria Falls, é considerado uma das melhores opções de hospedagem na cidade.
Durante o percurso, interrompido por alguns segundos para esperar um elefante atravessar de uma margem a outra do rio, foi possível observar a nuvem de vapor formada pelas cataratas - visível a
30 quilômetros de distância. A cortina branca já dá uma ideia da grandiosidade das quedas.
Comparações as Cataratas do Iguaçu à parte - para mim as duas são belíssimas e únicas - dá para entender porque o missionário escocês David Livingstone, fundador da cidade, rasgou-se em elogios ao vê-la pela primeira vez. Segundo ele, “é uma paisagem tão apaixonante que deve ter sido admirada pelos anjos”.
Para encontrá-las, o inglês seguiu a névoa e baseou-se nas histórias que os nativos contavam. Em 1857 tornou-se o primeiro homem branco a vislumbrá-la e a batizou em homenagem à rainha britânica Victoria, que reinou durante o século 19. Os locais costumavam chamá-la de Mosi-Oa-Tunya, algo como a “fumaça do trovão”.
Na sua jornada, David Livingstone acabou encontrando uma pequena ilha no rio Zambezi. É a Ilha Livingstone, como ficou conhecida. Tendo-a como base, dá para ir até a beira da cascata e ver tudo de pertinho. Os mais aventureiros vão ainda mais longe e nadam até a “Piscina do Diabo”, que termina na mesma linha de pedras que as cachoeiras começam. Isso sim que é borda infinita!
Para chegar até a piscina, os turistas nadam amparados por uma corda de apoio. Antes de mergulharem, algumas pedras são jogadas na água para garantir que não há hipopótamos submersos por ali. “Eles estão por todo o rio, por isso é bom checar”, explicou o guia que tinha o sugestivo nome de Alfa e Ômega (não era apelido, era nome mesmo). Os risos incontroláveis devido à graça do rapaz foram logo embora quando ele contou que “esses animais são os que mais matam pessoas na África”. O silêncio pairou no ar.
Os que não querem se molhar e nem ter a surpresa de encontrar um hipopótamo podem ir pelo caminho convencional. Para ter acesso ao Parque Nacional Victoria Falls é preciso pagar uma taxa de US$ 20. O passeio segue por caminhos e passarelas bem sinalizados que levam até mirantes de onde se observam as cachoeiras dos mais diversos ângulos. Vale a pena fazer uma pausa em cada um para fotografar a paisagem, que fica mais bela com os arco-íris formados nos dias ensolarados. Nas noites de lua cheia, a reserva fica aberta até mais tarde para que os visitantes possam ver o raro e belo arco-íris noturno.
De abril a junho é o período de cheia. O volume de água cresce muito e não se veem mais as pedras e a vegetação. Em setembro, período de poucas chuvas, porém, esses dois itens estavam bem à mostra. Independente da época é bom levar capa e sacos plásticos para proteger a máquina fotográfica. Com o vento, os pingos se transformam em uma garoa e molham bastante.
Victoria Falls tem dupla nacionalidade - um trecho pertence a Zâmbia e outro ao Zimbábue. A fronteira entre os dois países é marcada pela centenária ponte de ferro que recebe o mesmo nome da catarata. É nela que se concentra outro ponto forte da viagem, o bungee jump, considerado um dos mais altos do mundo com
111 metros.
Para ir até onde acontecem os saltos, é preciso cruzar um posto de imigração do governo da Zâmbia e solicitar uma autorização, afinal é uma zona de fronteira. Os fiscais não costumam pedir, mas tenha em mãos o passaporte para garantir.
A plataforma para o salto fica bem no meio da ponte. Instrutores atentos, rostos temerosos de quem está à espera da vez e você só escuta cinco, quatro, três, dois, um... Bungee - a pessoa despenca
111 metros de cabeça para baixo.
Do alto mesmo ficam os que escolhem conhecer a região sobrevoando-a de helicóptero ou fazendo um voo de meia de hora em ultraleve, passando junto às quedas. Boa parte dos hotéis tem parcerias com os operadores desses serviços.
VIDA SELVAGEM
O território do país reúne 19 parques nacionais. Alguns são tão isolados que o acesso se torna um grande empecilho para o turismo. Porém, a maioria já oferece facilidades, como hotéis e campings, que permitem aos visitantes realizarem bons safaris à procura do big five.
A maior reserva fica a oeste da capital, Lusaka. É o Kafue National Park, com mais de 22 mil quilômetros quadrados e grande variedade de animais e plantas. Do outro lado da balança fica o Mosi-oa-Tunya, a menor reserva com apenas
67 quilômetros quadrados. Apesar de não ter nenhum felino, o diminuto parque exibe cinco rinocerontes brancos – variedade rara de mamífero.
Cheia de esperança para vê-los, parti de manhã bem cedinho para o safári. Logo notei o lado bom de fazer um game (esse é o termo em inglês para a busca pelos bichos) em uma reserva enxuta. Em apenas 15 minutos demos de cara com um grupo de 10 búfalos. Mais algumas voltas e uma girafa prenha comia as folhas da copa de uma árvore. Zebras, javalis, elefantes... vi de tudo. Mas nada do rinoceronte. Isso acontece: os animais não estão ali necessariamente para satisfazer os visitantes.
Ainda assim, o casal de australianos que participava do mesmo game drive vibrava a cada novo pássaro que conseguiam vislumbrar com seus potentes binóculos. Discutiam, analisavam e comentavam sobre as espécies de aves que eu nem conseguia enxergar. Se aquilo fosse um bird watching, teria sido perfeito.
Melhor foi o passeio de elefante - uma experiência memorável. Os sete animais da empresa que oferece esse serviço vieram do Zimbábue em 2009, cruzando a ponte Victoria. Como há diferentes tipos de roteiros, acabei escolhendo o tour de uma hora pela savana. A partida acontece a oito quilômetros das cataratas, no local onde vivem os animais. Para programar o passeio é importante ficar atento aos horários das saídas, às 7h e 7h30 pela manhã e às 15h30 e 16h a tarde.
Antes de subir no grandalhão, são feitas as devidas apresentações, tanto do animal, como do condutor que acompanha o visitante durante o trajeto. São eles que deixam o tour de uma hora ainda mais interessante, pois fornecem explicações sobre tudo, incluindo a vegetação. Mostram curiosidades pelo caminho e o que mais possa surpreender o visitante. “Isto funciona como uma escova de dentes natural”, me mostrava entusiasmado o guia, passando um pequeno galho na boca.
A expedição termina aos pés de um frondoso baobá, a sagrada árvore africana. Antes de ir embora é possível alimentar os elefantes com ração e, apesar do tamanho todo, eles são extremamente delicados ao pegar a comida em nossas mãos.
Conselho: por mais que as atrações anteriores sejam imperdíveis, certifique-se de reservar duas horas para conhecer o Museu Livingstone. Apesar da simplicidade da instalação, ele tem um acervo que não decepciona. O início da coleção retrata a evolução humana com a apresentação de fósseis e esqueletos encontrados no país. As primeiras armas e utensílios usados há milhões de anos ficam expostos nos corredores seguintes.
Interessante também é a ala que reproduz como viviam as tribos antigas e como elas estão hoje. Fotos e objetos usados em nascimentos, casamentos e velórios tribais ajudam a entender melhor a cultura do país.
Na parte reservada à medicina natural e às crenças, o guia gargalhava: “Isso é 100% Zâmbia”. Há desde infusão com excremento de elefante indicada para conter sangramento do nariz, até mandinga feita com pele de cobra, raízes e miçangas, que têm como finalidade destruir os inimigos.
A história da cidade de Livingstone tem um espaço especial. Explica-se desde a época da fundação quanto as curiosidades sobre o missionário escocês e o período que foi colônia britânica. Há também registros sobre o cenário político após a independência em 1964.
Uma vez visto o museu, a pedida é esticar o passeio até o Mercado Maramba. Mas fique atento, porque é preciso curiosidade e estômago forte. Quem quer sentir o dia a dia e ter um contato maior com moradores - e não só com aqueles que estão atrás de um uniforme de hotel ou de guia turístico – encontra nesse lugar a realidade da Zâmbia. Os corredores estreitos apinhados de barraquinhas revelam todo tipo de produto: de radinhos de pilha a malas, de produtos de limpeza a alimentos (higiene não é o forte por ali).
Entre a tendinha de sabão em pó e a de roupas, um homem pedia milhares de kwachas (cinco mil kwachas valem um dólar) para erguer com a boca uma barra de ferro de 25 quilos. Rodinha formada, dinheiro arrecadado e em menos de dois minutos o cidadão magro e coberto de poeira levantou, de fato, a barra só com os dentes.
BRINDE SOBRE TRILHOS
Por ano, Livingstone recebe em média 140 mil turistas, um número ainda baixo para um lugar que reúne uma das mais belas maravilhas naturais do mundo. Apesar da infraestrutura modesta da cidade, os turistas estão bem servidos com a rede hoteleira. Há luxo para quem quer isso, como no caso do hotel Royal Livingstone, onde zebras passeiam pelo amplo jardim. Durante uma massagem nos gazebos, à beira do rio Zambezi, é possível ver elefantes e hipopótamos do outro lado da margem. Tanto o spa, como o restaurante do hotel e o deck bar, são abertos para não hóspedes. Um ótimo lugar para tomar um drinque ao pôr do sol.
Bem ao lado, o três estrelas Zambezi Sun não tem o ar clássico do vizinho, pelo contrário, a decoração colorida e vibrante é bem ao estilo africano. Uma boa para quem viaja em família. O bar da piscina, o café e o restaurante que serve no esquema de buffet também são abertos para o público em geral.
Cada um deles tem o seu “curio-shop”, lojinha que vende artesanato, suvenires, livros e joias. Não tem os melhores preços, mas a facilidade de pagar com o cartão de crédito estimula o consumo. Caso contrário, se estiver com kwachas no bolso, o mercado Victoria Fall, que funciona todos os dias na entrada da reserva, é a melhor opção. A insistência dos vendedores cansa, mas, com uma boa conversa, é possível conseguir descontos consideráveis. Máscaras, telas, esculturas e miniaturas são as pedidas.
Para terminar a jornada pela Zâmbia com toda a pompa e circunstância, convém jantar a bordo do Royal Livingstone Express. Com capacidade para 92 pessoas, a composição ferroviária tem um amplo vagão de observação, onde os passageiros ficam boa parte do tempo. O restaurante serve alta gastronomia a US$ 150 por pessoa, com vinho e cerveja inclusos. O cardápio é elaborado pelos chefes do hotel, que mudam o menu a cada seis meses.
O passeio vale tanto quanto o jantar. O trem segue pela ferrovia criada em 1916, passando pelo subúrbio de Dambwa (as crianças ficam eufóricas acenando) e pelo Parque Nacional Mosi-oa-Tunya, onde se veem elefantes, búfalos e rinocerontes. O trajeto começa às 17h e termina depois das 21h.
Às vezes, o trem para sobre a ponte Victoria para um brinde. Um final tão agradável quanto à estada nesse país, que aos poucos vai ganhando os olhos do mundo. Merecidamente.
ROTA DOS ANIMAIS
Apesar de não terem a mesma fama dos safáris que acontecem na África do Sul e no Quênia, os games na Zâmbia não ficam devendo em nada. Os parques nacionais estão espalhados por todo o país, e muitos reúnem, além do Big Five, diversas espécies de macacos, girafas, zebras, antílopes, pássaros e muitos outros.
Para observar a vida selvagem de perto, os passeios podem ser feitos durante o dia em carro aberto, ou quando escurece para observar os animais com hábitos noturnos. Ainda há opção de deixar o veículo e fazer o percurso a pé, ou pelos rios, navegando em canoas.
Entre os parques mais procurados estão o Lower Zambezi, a leste da capital Lusaka, com um bom número de elefantes, búfalos e hipopótamos. Há grande abundância de pássaros na reserva Lochinvar, a
250 km de Lusaka. No kasanka National Park o destaque é o raro Antílope Sitatunga. No maior do país, o kafue, leões, leopardos, elefantes e búfalos, estes encontrados em grandes manadas, estão espalhados pelos quase 22 mil km² de área.
www.ratatouillepub.blospot.com Blog de gastronomia, esportes e viagens!
Fonte: Viajar
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Nenhum comentário:
Postar um comentário